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18 de julho de 2016

Bolo Leite de Pássaro: receita soviética

Bolo leite de pássaro (торт птичье молоко) é mais um prato da Rússia soviética que é muito popular no país. A receita do bolo foi inventada em 1980 por três confeteiros: Margarita Gólova, Nikolai Pânfilov e Vladimir Guralnik, o chefe deles e o autor do bolo Praga. Em 1982 a receita foi patenteada.

O bolo foi inspirado nos doces com o mesmo nome, que por sua vez, foram inspirados nos doces da Polônia Ptasie Mleczko (leite de pássaro) e outros parecidos encontrados por nosso ministro da indústria alimentícia na República Tcheca. Ele mandou os confeteiros da União Soviética desenvolver a sua própria receita. Os primeiros exemplares de doces leite de pássaro soviéticos foram feitos em Vladivostok. Como é uma cidade do litoral, a fábrica de lá usou ágar-ágar em vez de gelatina. Ágar-ágar é um produto do mar, que faz o suflê mais fofo. Ele só pode ser cozido com temperatura baixa, menos de 118 graus. Os doces feitos com ágar-ágar só podem ser guardados por 14 dias.

Quando os cozinheiros do restaurante Praga inventaram o seu bolo, eles também decidiram usar o ágar-ágar, mas fizeram o suflê mais leve que o dos doces. Eles fizeram experimentos com a massa e o suflê por seis meses até encontrar a combinação ideal.

Muitas pessoas dizem que hoje em dia não é possível comprar um bolo leite de pássaro que seja autêntico e recomendam fazé-lo em casa. Eu achei a receita desse bolo de acordo com os padrões estatais daquela época chamado GOST (ГОСТ).

Receita do bolo leite de pássaro de acordo com o GOST


Ingredientes

Massa:
100 g de açúcar
100 g de manteiga
2 ovos
140 g de farinha de trigo
0,5 colher de chá de açúcar de baunilha 

Suflê:
2 claras
460 g de açúcar
100 g de leite condensado
200 de manteiga
2 colheres rasas de chá de ágar-ágar (ou 24 g de gelatina, mas isso já não é de acordo com o GOST)
0,5 de colher de chá de ácido cítrico
0,5 de colher de chá de açúcar de baunilha
140 ml d'água

Cobertura:
75 g de chocolate amargo
50 g de manteiga

Modo de preparo

Preparações: coloque o ágar-ágar ou a gelatina na água (use uma panela onde vai aquecé-lo depois), ligue o forno e tire a manteiga da geladeira.

Massa: Para fazer a massa, bata os ovos, o açúcar, o açúcar de baunilha e a manteiga. Acrescente a farinha de trigo e continue a bater até que a massa vire um creme muito liso e grosso, mas leve.

Coloque metade da massa numa forma untada com manteiga. A espessura deve ser de mais ou menos 0,5 cm. Deixe-a no forno aquecido até 210 graus até mais ou menos por 10 ou 12 minutos. Tire da forma rápido para não quebrar. Quando despejar a segunda parte da massa já não precisa untar a forma, porque ela está quente e a massa contém manteiga. Faça essa outra parte do mesmo jeito e retire-a.

Importante: Antes de começar a fazer o suflê lave a forma, seque-a e cubra-a com filme de PVC.

Suflê: Para fazer o suflê primeiro bata a manteiga com o leite condensado e o açúcar de baunilha e reserve. Limpe a manteiga da batedeira e seque-a com pano. Agora vamos bater as claras. Veja se a tigela onde você vai batê-las está seca, não podemos deixar nenhuma gota d'água. Bata as claras, adicione o ácido cítrico e bata mais uma vez. Se você costuma adicionar uma pintada de sal para que as claras batam melhor, nesse caso não faça isso. O ácido cítrico vai fazer esse trabalho em vez do sal.

Agora coloque a panela com o ágar-ágar/ gelatina no fogo baixo ou médio e espere que ele derreta. Adicione o açúcar, misture e aguarde que ele fique transparente. Não deixe o xarope borbulhar (só um pouquinho talvez) e fique mexendo de vez em quando até ficar pronto. Como entender se está pronto? Quando você tira a colher, o xarope não parece mais tão líquido e também não cai de vez, ele estica.

Deixe o xarope esfriar um pouquinho e depois comece a batê-lo e acrescente as claras. Bata bem e adicione a massa de manteiga e leite condensado. Bata de novo.

O bolo: Coloque uma camada da massa pronta e despeje metade de suflê por cima. Deixe na geladeira por 10 minutos Ponha a segunda camada da massa e despeje nela o restante do suflê. Coloque o bolo na geladeira por 30 minutos.

Cobertura: Aqueça o chocolate e a manteiga numa banho maria, misture bem e despeje por cima do bolo. Coloque-o na geladeira de novo.

Quando o bolo estiver pronto, tire-o da forma puxando o filme de PVC. Bom apetite!

O bolo leite de pássaro nem sempre sai bem da primeira vez. No meu caso, a segunda camada da massa ficou flutuando por cima do sulfê e o bolo saiu com uma camada de suflê em vez de duas. Espero que o seu bolo dê certo da primeira vez ;-)
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14 de junho de 2016

Bolo Praga: história e receita

Nesse artigo vou contar sobre bolo Praga (торт Прага), respondendo a pergunta da minha leitora Charito Peraza que pediu a receita.

Como sempre, primeiro vou escrever um pouco sobre o próprio bolo. Eu diria que existem pratos nacionais que todo mundo conhece. Assim, pensando no Brasil, o russo lembra de feijoada e pensando na Rússia, o brasileiro lembra de bliny e estrogofe. Entretanto, há pratos, que o estrangeiro não conhece muito bem, mas os nativos não imaginam a sua cultura sem eles. O bolo Praga é um desses pratos. Quando um estrangeiro me diz que ele conhece o bolo Praga, eu entendo que o conhecimento dele sobre a Rússia vai além de matryoshka. Ou seja, ele já sabe algo do lado de dentro da minha cultura.

Charito contou que na infância comeu esse bolo na Bolívia na casa de alguém. Fiquei muito impressionada com isso. Se aquela pessoa não for russa, ela deve haver algum contato com o país. Eu li que no passado houve muitos imigrantes russos na Bolivia. Quem sabe, o caminho da receita foi aquele. De qualquer jeito, Charito, se você ainda conhece a pessoa, mande um "Privet" para ela da Rússia :-) 

De um certo jeito, bolo Praga é especial. Ele é um dos símbolos dos tempos soviéticos. Provavelmente você imagina que naquela época as pessoas só poderiam viver de um jeito muito símples e o luxo não existia. Entretanto, cada época tem seu luxo e os seus ricos. Em Moscou soviética dos anos 50-a, 60-a, 70-a e 80-a os ricos, famosos e poderosos frequentavam numa restaurante chamada "Praga". É lá onde foi inventado o bolo.

O autor da receita, Vladimir Guralnik (Владимир Гуральник), trabalhou no restaurante desde 16 anos. Durante a sua juventude ele participava nos programas de intercâmbio com a República Tcheca organizadas pelo restaurante e estudou com os confeteiros tchecos. Bolo Praga, de um lado, comemora o nome do famoso restaurante e, do outro, esse tempo e experiência que passou para o Vladimir dos seus colegas estrangeiros. Quando o bolo foi inventado, ele já era o diretor do "Praga".

Hoje em dia, bolo Praga é um dos favoritos na Rússia, uma sobremesa clássica. Talvez por isso existem muitas variações. Nesse artigo eu vou compartilhar uma receita que pedi de uma amiga da infância Natalia Zenina. A família dela usa essa receita de bolo Praga há quase 30 anos e olha, é muito boa! Eles tem bastante experiência com esse bolo. Já comi tantas vezes na casa dela e sempre gostei :-) Agora vocês também podem fazer na sua casa. Tanto que os ingredientes não são nada de exótico sem contar a smetana. E como diz a Natalia, esse bolo sempre dá certo.

Receita de bolo Praga da família Zenin


Ingredientes

Massa: 
250 g de smetana
1/2 de uma lata de leite condensado
2 ovos
1 copo americano (em nosso caso, soviético ;-) o que é mesma coisa!) de açúcar
1 copo de farinha de trigo
1 colher de chá de sódio bicarbonado
2 colheres de sopa de chocolate puro em pó

Para o creme:
200 g de manteiga
1/2 de uma lata de leite condensado
2 colheres de chá de chocolate em pó puro
um pouco de nozes picados ou moidos

Cobertura de chocolate:
3 colheres de sopa de leite
6 colheres de sopa de açúcar
50 g de manteiga
3 colheres de sopa de chocolate em pó

O bolo se faz numa panela alta como aquela para fazer sopa. Preste atenção que ela não deve ter partes de plástico ou de madeira, porque vai no forno. A altura da panela deve ser bastante para o bolo crescer. Para as medidas indicadas nessa receita eu usei uma panela de uns 25 cm de diâmetro e mais ou menos 15 cm de altura. Deu tudo certo e consegui um bolo bem redondinho e bonito.

Unte a panela com manteiga e polvilhe com farinha de rosca ou semolina e reserve. Preaquece o forno até 180 graus.

Para fazer a massa do nosso bolo Praga, misture os ovos com açucar e adicione smetana, leite condençado e chocolate em pó. Mexe bem e acrescente a farinha de trigo. Por último adicione o sódio bicarbonado (não precisa usar suco de limão ou vinagre). Coloque a massa na panela e feche com papel aluminio. Cozinhe no forno por 40 minutos (exatamente esse tempo) e não abre o papel aluminio.

Enquanto isso misture os ingredientes para o creme e reserve na geladeira.

Apos de 40 minutos tire o bolo do forno e veja se ficou pronto. Se ainda não ficar, coloque de volta e espere um pouco mais.

Corte o bolo em 3 camadas (se não dá, pode ser 2) e passe o creme nas primeiras duas. Deixe o bolo na geladeira por 8 horas ou mais. Eu deixei "dormir" a noite.

O passo final é passar a cobertura de chocolate. Antes disso passe geleia de abrico ou de pessego por cima e aos lados do bolo.

Para fazer a cobertura, aquece a manteiga e adicione os outros ingredientes nessa ordem: leite, açúcar, chocolate em pó. Cozinhe um pouco até a consistência ficar boa. Enquanto a cobertura ainda está quente, passe-a por cima do bolo assim que ela cobre a cima e os lados também.

Pronto! Seu bolo Praga pode ser servido!

Mais uma vez agradeço a minha amiga que compartilhou a receita e espero que mais pessoas aprendem a fazer bolo Praga em casa.
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7 de agosto de 2015

Comida e polítca: o governo russo decidiu queimar produtos de contrabando

Nessa postagem em vez de dar uma receita ou descrever mais um ingrediente da culinária russa vou falar um pouco sobre política. Não sei se isso apareceu de alguma forma nas notícias do Brasil, mas está sendo bastante discutido na Rússia e nos EUA. 

O governo russo decidiu queimar os alimentos de contrabando em vez de mandar de volta para o país de orígem. Quem se interessa pela Rússia talvez sabe que o conflíto entre ela e a Ucrânia piorou as nossas relações com a Europa e os EUA (para falar a verdade, elas nunca eram boas). Uma das consequências foi a aplicação de sanções à Rússia por parte da UE. A Rússia respondeu introduzindo sanções contra a comida importada da UE. Nesse verão, o minístro de agricultura Aleksey Tkatchev ofereceu ao presidente da Rússia criar uma base legislatíva para eliminar os produtos de contrabando. Putin aceitou. Em 31 de julho o primeiro ministro Medvedev assinou a lei. 

Como reagiu o povo? Levantou bastante sujeira na mídia. A maior parte das pessoas não reagiu. Mas uma certa camada de russos começou a criticar. Alguns simplesmente falaram que queimar comida não é bom, é contra nossa cultura (eu os entendo, veja o artigo sobre as nossas tradições). Outros realmente exageraram, dizendo que o presidente não é humano, não é filho dos seus pais e não é cidadão de São Petersburgo. Uma colega minha compartilhou o pensamento de um cara que expressa bem a opinião desses críticos. Ele disse mais ou menos o seguinte: "Sendo um morador de São Petersburgo e neto de pessoas que sobreviveram nessa cidade durante a guerra sofrendo fome, eu não imagino como Putin pode fazer isso com comida. Eu nunca jogo fora o pão. Se estraga, dou para pombos na rua. Tenho uma neurose com comida. Todo mundo na minha família tem. Como Putin a superou?" Na mídia ucraniana apareceram artigos dizendo "um russo queimou um queijo francês na frente da câmera e ficou triste que não poderia queimar mais alimentos" ou "os oficiais russos destroem comida na frente da câmera". A mídia norte-americana tem mais notícias sobre a nova lei que a mídia russa. Hoje eu procurei no Google por "Russian food" para saber se existem recursos bons. Mas a primeira página dos resultados de busca estava toda coberta com titulos sobre a comida queimada na Rússia. Somente na segunda e terceira página eu achei os blogs temáticos. Não preciso mencionar que as publicações norte-americanas falavam muito mal da Rússia, dizendo que ela não é humana e muito mais.

Curiosidades para analisar: 

  • Os críticos repetem "Putin mandou queimar a comida", mesmo que nem foi ele que deu a ideia. E não foi ele que assinou a lei. 

  • Eles sempre usam a frase "queimar comida", mas a lei não fala nada sobre queimar, somente "eliminar". De qual jeito? De qualquer maneira possível nesse caso. Mas dizer "queimar" é mais legal, assim os leitores podem relacionar isso com inferno. Putin e inferno vão juntos na mesma frase.

  • Como já mencionei, alguns jornalistas atraem a atenção do leitor para o fato que a comida é deistruída na frente das câmeras. Não parece um doente matando alguém e gravando? Parece. Mas a gravação é usada para provar que a comida foi destruída mesmo e não continuou a sua viagem ilegal pelo território da Rússia. Só isso.

Eu não sou a favor desse presidente (razões pessoais: eu trabalho na educação e não gosto das coisas nessa área). Entretanto, eu não apoio essa crítica e acho que a medida é certa. Usar produtos illegais para ajudar os pobres ou moradores do Donbass signifíca criar uma imagem boa para uma coisa ruim. Assim essa comida sempre vai ser bem-vinda aqui. Vender nas lojas do governo por preços baixos iria criar o mesmo efeito. Sem falar que no momento queremos apoiar os produtores nacionais e não bater na cara deles com preços baixos. Além disso, essas duas medidas levariam às vendas ilegais, porque controlar esse processo é mais difícil que controlar a eliminação dos produtos justamente nas fronteiras do país. Quanto ao lado moral, eu não gosto de jogar fora a comida, mas proteger o produtor nacional e evitar vendas ilegais é mais importante. Sobre a "neurose" com comida, que na opinião de alguns críticos deve ser parte de mentalidade de qualquer cidadão de São Petersburgo... eu fico feliz que o presidente não a tem. Não queria que o meu país fosse governado por uma pessoa com algum típo de neurose.

Para finalizar, não acho que os EUA podem nos criticar. Eles produzem um monte de filmes onde as pessoas jogam comida uma na cara da outra de brincadeira, fazem guerras de comida, compram bolos para amassar na cara de alguém. A Rússia somente quer se proteger dos produtos ilegais e tem direito de fazer isso.

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29 de março de 2015

Água mineral Yessentuki

A água mineral Yessentuki (Ессентуки) é uma das 10 bebidas que eu recomendo experimentar na Rússia. Na minha opinião, é a única água mineral que pode concorrer com a Borjomi, da Geórgia. As duas são do Cáucaso, uma região rica em águas minerais.

O lugar onde ficam os correntes de Yessentuki é bastante antigo. Ele era parte do grande império dos mongóis. Com o fim do império chegou o fim da cidade, ela virou um lugar selvagem. Ninguém morava lá, somente alguns povos nômades das montanhas que passavam de vez em quando. No fim do século XVIII a fronteira sul da Rússia passava lá. Começaram a ser construídas fortificações no local. Os cossacos e as famílias deles chegeram para morar nessas terras e no século XIX foi fundada a cidade de Yessentuki. Nos primeiros anos ninguém sabia sobre as águas minerais e mesmo quando as descobriram, não se importaram muito. Se não fosse um cientista de São Petersburgo que estudou as águas e anunciou que eram bastante valiosas, talvez ninguém fizesse nada. Mas graças a ele, o governo realizou um projeto de termas (levaram 20 anos para o governo levar todo o estudo a sério e 10 anos para construir!). Hoje o balneário de Yessentuki é  um dos maiores na Rússia.

Um fato interessante sobre as águas de Yessentuki é que elas possuem vários sabores. O meu favorito é o da Yessentuki №17. Ele é forte, bastante pronunciado e salgado. Para quem vai experimentar Yessentuki pela primeira vez, eu recomendo a №4. Essa água é algo mais símples, algo menos forte. Tem gente que gosta somente dela. Já a Yessentuki №20 eu não consigo beber, porque o sabor dela me parece estranho. Essa última água não é algo que as pessoas bebem porque gostam, mas sim porque precisam. Recentemente foi aberto mais um poço de água mineral: Yessentuki №2. O sabor dessa água é parecido com os números 17 e 4.

Esses três tipos de água mineral Yessentuki são usados para tratar várias doenças (e realmente ajudam). Muitos médicos russos a recomendam como parte da dieta. A Yessentuki №17 ajuda as pessoas que têm gastrite, diabetes ou problemas com fígado. Usa-se também para combater o excesso de peso e emagrecer. A Yessentuki №4 é recomendada para as pessoas que foram operadas recentemente, principalmente no estômago. Ela cura vários problemas de fígado (parece que quase todos), úlcera, gastrite e melhora o metabolismo. As mesmas qualidades possui a Yessentuki №2. A Yessentuki №20 serve para resolver os problemas com o aparelho urinário.

Na Rússia a água mineral Yessentuki se vende nas lojas, supermecados e farmácias. As pessoas normalmente escolhem as de número 4 e 17, como são mais gostosos. A número 20 nem sempre se encontra nas lojas comuns.

Quando estiver na Rússia, tome um copo (na verdade é melhor uma garrafa) de Yessentuki. Espero que você goste! Se tiver uma chance, visite também a cidade de Yessentuki e aproveite o balneário e as suas atrações ;-)

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2 de fevereiro de 2015

Estrogonofe autêntico

Um dos leitores do blog e meu amigo pediu escrever sobre um estrogonofe autêntico. Acho que vai ser interessante não só para ele, mas para muitos brasileiros já que esse prato russo é tão popular no Brasil (não sei dizer sobre os outros países lusófonos).

Meu estrogonofe "autêntico"
Primeiramente, na Rússia nós não chamamos o prato exatamente de "estrogonofe"; Nós escrevemos e pronunciamos "befstrógonof". Ou seja, se você vai querer um estrogonofe num restaurante da Rússia, procure o befstrógonof (бефстрогоноф).

Quanto a receita do estrogonofe autêntico, até na Rússia existem variações. No final das contas, o país possui 85 regiões e passou por várias épocas. Por isso, responder a pergunta sobre como é o estrogonofe autêntico não é fácil. Entretanto, os cientistas vão nos ajudar! Viliam Pokhlyobkin, o maior historiador da culinária russa, fez estudos e descobriu algumas detalhes importantes da receita. Graças a ele nós vamos conhecer a receita mais clássica do estrogonofe.

Receita do estrogonofe autêntico


Ingredientes

600 g de carne de boi (Pokhlyobkin não fala quanto exatamente, mas é mais ou menos isso)
1 ou 2 cebolas (bastante para cobrir o fundo da frigideira)
pimenta de reino e sal a gosto

Molho:
1 caneca de smetana
1 colher (sopa) de farinha de trigo
1 ou 2 colheres (sopa) de suco ou molho de tomate

Modo de preparo

De acordo com Pokhlyobkin, você deve bater a carne e cortá-la em tiras de 0,5 cm de espessura e 5 ou 6 cm de comprimento. Corte horizontal. Passe a carne na farinha. Ponha óleo numa frigideira e adicione a(s) cebola(s) cortada(s) em aneis. A quantidade de cebola deve ser bastante para cobrir o fundo e a carne não tocar a frigedeira. Em cima da cebola coloque a carne e frite rápido no fogo alto. Não frite muita carne de uma vez e faça o óleo bem quente antes de fritar. O tempo ideal de fritura da carne é de 2 à 5 minutos. Quando a carne ficar dourada e adquirir um certo brilho, desligue o fogo.

Misture os ingredientes para fazer o molho. Coloque a carne e a cebola numa panela grande e ponha o molho em cima. Cozinhe de 15 à 30 minutos, dependendo da qualidade da carne. O estrofonofe está pronto!

Mas sobrou uma dúvida. Talvez você tenha percebido que nos ingredientes há pimenta e sal, mas eu não os mencionei no modo de preparo. Pokhlyobkin também não! Então, o que fazer com eles? Algumas pessoas recomendam adicionar o sal e a pimenta justamente na carne antes de fritar, outras oferecem por em cima da carne e cebola depois de fritar. Eu apoio os segundos, porque a carne fica mais dura se colocar sal nela antes de cozinhar (só o shashlyk e churrasco são diferentes, já que eles são marinados). Você escolhe o que é melhor para você.

Se quiser fazer um estrogonofe totalmente autêntico, sirva ele com batata frita. Pode adicionar tomates frescos cortados em pedaços.

Deve ser difícil encontrar um estrogonofe cozido com smetana no Brasil ou em Portugal. Mas acredito que isso não é a única diferença entre o estrogonofe "estrangeiro" e o autêntico. Deixe um comentário sobre o estrogonofe no seu país. É muito diferente do estrogonofe russo ou é mesma coisa?
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22 de dezembro de 2014

Vinegret - uma salada russa de legumes

Vinegret (винегрет) é uma das saladas russas mais famosas. Ela é feita de legumes cozidos e picles. É considerada algo muito saudável e leve. 

Acredita-se que o vinegret foi inventado nos tempos do imperador Alexandre I (começo do século XIX). O nome da salada é relacionado com vinagre. Dizem que o cozinheiro russo que inventou o prato estava na cozinha quando um colega dele da França perguntou se ele usou vinaigrette (um tipo de molho francês com vinagre). O russo não entendeu nada e pensou que o francês perguntava se poderia chamar a salada assim e decidiu que tudo bem, pode.

Há varias versões de vinegret na Rússia moderna, mas elas não são muito diferentes. Aqui eu vou compartilhar uma receita da minha avó.

Receita de vinegret


Ingredientes

mais ou menos mesma quantidade de beterraba, batata, cenoura, ervilhas e picles
cebola ao seu gosto (o médio, para um prato grande, é uma cebola)
óleo, vinagre e sal

Modo de preparo

Cozinhe a batata,  a beterraba e a cenoura sem tirar as cascas. Depois retire-as da água e deixe esfriar. O mais prático é cozinhar esses ingredientes um dia antes de fazer o vinegret.

Quando todos os ingredientes estiverem prontos para usar, tire as cascas da batata e da beterraba. Corte-as em cubos. Pique os picles do mesmo jeito. Em um grande prato ou em uma panela misture tudo. 

Pique a cebola e coloque-a no seu vinegret também junto com as ervilhas.

Misture óleo com vinagre (proporções são 3:1), adicione sal a gosto e misture o molho com a salada. Seu vinegret está pronto!

Importante: vinegret pode ser guardado um ou um dia e meio só.

Se gostou da receita, vale a pena compartilhar :-) Vamos promover a comida saudavel!
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17 de novembro de 2014

Pelmeni: um prato tradicional da Sibéria

Na Rússia temos comida que se chama pelmeni (пельмени). Quando alguém me pergunta o que é, eu falo que é algo como ravioli, mas muito melhor (e é verdade que melhor, porque tem mais carne). Mas acho que pelmeni realmente merecem mais atenção. Vou falar um pouco sobre a história desse prato russo e sobre a tradição de pelmeni na Sibéria.

A história do pelmeni na Rússia começou alguns séculos atráz. Na verdade, ninguém sabe exatamente quando. Tem várias versões sobre como esse prato apareceu na Rússia. Uma delas fala que os chineses trouxeram pelmeni para o nosso país. De um lado isso até parece logico, porque os chineses tem um prato parecido e moram perto da Sibéria, onde esse produto é considerado tradicional e de onde ele veio para a parte europeia do país. Mas não existe nenhum fato que poderia provar isso. Outra versão fala que foi  Marco Polo que trouxe pelmeni para a Rússia depois de visitar China. Isso parece um pouco louco porque o prato já existia na Sibéria muito tempo antes. O mais provável é que pelmeni foi inventado pelos povos fino-úgricos. 

Esses povos moravam no território do Altai (uma região no sul da Sibéria conhecida pelas bonitas montanhas) e começaram a migrar para Ural e ainda mais longe para oeste mais ou menos 3 000 anos a.c. Esses povos tinham um prato que foi feito de carne enrolada em pedaço de massa. Como Sibéria é um lugar bem frio e selvagem, isso foi bastante pratico. Primeiramente, isso foi uma comida nutritiva. Sendo coberto de massa e temperada a carne de pelmeni não atraia os animais perigosos como lobos e ursos. Além disso, pelmeni poderia ser guardado o inverno inteiro: a pessoa simplesmente deixava ele um pouqinho na rua e tudo congelava, depois para preparar comida foi só jogar os pelmeni na água quente. Só que o prato não se chamava pelmeni. Ele se chamava peln'an' (uma orelha de massa). Passando pelo Ural, os fino-ugricos ensinavam os povos locais como fazer o prato. Com tempo o "peln'an" virou "pelm'an'" e finalmente chegou a virar o nosso amigão "pelmeni". Quando os russos começaram a explorar a Sibéria, eles apreciaram bastante dessa comida gostosa e nutritiva e o pelmeni se espalhou pelo país inteiro.

Claro que o mais gostoso é sempre na Sibéria (eu já provei que sim). Aqui muitas famílias guardam a tradição de fazer pelmeni em casa. Isso é um evento para homens, mulheres, velinhos e crianças, que todos sentam na mesa e começam a enrolar pedaços de carne na massa. Algumas famílias até fazem competições: quem vai conseguir fazer mais pelmeni de uma vez. Durante o processo pessoas conversam e brincam.

E como é o sabor do pelmeni? Bom, é gostoso ))) A massa é mais fina do que a massa do ravioli e não é um tipo de pasta. Dentro tem carne moída com alho, cebola e temperos. A porção de carne é maior do que no ravioli. Pelmeni é cozido na água com um pouco de sal. Comemos esse prato com manteiga, smetana, maionese ou molho de tomate.
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10 de novembro de 2014

Bolinho Batata (kartoshka) sem forno

Vou compartilhar a receita de um bolinho que é famoso por ser pequeno mas encher como se fosse um bolo enorme. O bolinho é feito sem forno, até criança consegue! Esse bolinho se chama "kartoshka" (картошка). Acredito que você pode chamá-lo de "batata" porque isso é o que significa o nome do bolinho em russo. Agora, por que batata? =) Não sei dizer! Talvez porque o bolinho parece com uma batatinha toda suja com terra.

A hsitória do bolinho começou na Finlândia no século XIX. Uma vez a familia do poeta Johan Ludvig Runeberg tinha visitantes que não esperava. O poeta não foi rico. Na cozinha tinha só sobros de bolachas, um pouco de geleia e farinha. Mas a esposa do Runeberg foi uma mulher experta. Ela juntou tudo isso e fez bolinhos bem gostosos. Os doces eram servidos num prato de prata como uma invenção. Desse jeito em vez de parecer pobres os Runebergs surpreenderam tudo mundo. Os bolinhos ficaram famosos não só na Finlândia mas também nos outros países da Europa inclusive a Rússia, onde foram chamados "batata".

A "batata" ficou muito popular na União Sovietica. Não só por causa do seu sabor, mas também por causa de ser muito racional: as bolachas quebradas durante a farbricação poderiam ser usadas sem jogar fora. Hoje se você pergunta algum russo, mais provavelmente, ele não vai saber que a "batata" tem algo a ver com a Finlândia. Tudo mundo acredita que isso é parte da culinária russa. Nós até inventamos as nossas próprias versões de "batata" como "batata de mel", "batata de tvorog" e varias outras. 

Aqui está uma receita clássica de "batata" que é perfeito com um café ou chá.

Receita de bolinho "batata" clássico


Ingredientes:

1 kg de bolachas doces que você goste
3 colheres (sopa) de chocolate em pó
50 g de manteiga (não use margarina porque ela tem mais tendencia a derreter)
1,5 copo americano de leite

Modo de preparo:

Coloque as bolachas no liquidificador e faça uma farinha delas. Adicione o chocolate em pó.

Misture com manteiga (a manteiga deve estar macia) e leite usando uma colher e depois as mãos.

Faça bolinhos iguais aos da foto. O tamanho deve ser mais ou menos 5 ou 7 cm. Isso é importante, porque esses bolinhos enchem tanto que muitas pessoas (inclusive eu) conseguem comer só um! Ponha as "batatas" na geladeira. Se quiser, pode decorar com chocolate em pó, noz ou creme.

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2 de junho de 2014

Museu de pastila de Kolomna


Um museu bastante interessante para quem quer conhecer a história, cultura e comida russa é o Museu de pastila de Kolomna.


Pastila (пастила) é um tipo de doce muito delicado, feito de pure de maçã ou bagas com mel e açucar, com claras de ovos ou sem. É bem gostoso!

Ninguém sabe quando exatamente foi inventado, mas aparece nos documentos e livros de século XVI.

Os mais famosos tipos de pastila são os de Kolomna, Rjev e Beliov. Kolomna é a cidade que começou a fazer pastila primeiro e tem a maior tradição.

O Museu de pastila de Kolomna guarda as receitas antigas e além de excursões, tem uma fabrica de pastila e uma loja. No museu você pode aprender a história da pastila na Russia e em Kolomna, descobrir como ela é e comprar uma caixinha para você.

O museu conta com pastila de maçã, maçã com mel, arando vermelho, framboesa, ribes, chocolate, ameixa, limão e outros. Você pode achar até a pastila preferida do escritor russo classico Dostoyevski.


Tudo isso você vai experimentar com chá durante a excursão!  É incluido na entrada. 


A pasitla do museu não se compara com a que você compra nas lojas comuns aonde vende-se pastila industrialisada. É muito mais delicada e tem muito mais sabores. Só durante a excursão você vai conhecer 7 sabores!


Depois, se quiser mais, compre na loja do museu.


A loja também oferece chás de Kolomna. Olha só que nomes! "Para sonhos doces", "Para ficar jovem", "Para descansar", "Para parar com tristeza", "Para ficar feliz", "Para crianças" e "Para acabar com todo o azar" :-) Esses chás contêm ervas do campo e floresta russa e são feitas de acordo com receitas tradicionais de Kolomna.

Além disso, o Museu de pastila de Kolomna tem seu proprio teatro que mostra espetaculos tematicos.

O museu fica na rua Posadskaya, casa 13a  (Улица Посадская, дом 13а). Isso é perto da estação de trem e terminal de onibus "Kolomna". O Museu de pastila de Kolomna funciona todos os dias, de 10:00 até 20:00. Para ver o espectaculo tem que avisar e comprar um bilhete.



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15 de maio de 2014

Museu de doces russos em Zvenigorod

Zvenigorod é uma cidade pequena no região de Moscou. Tem menos de 20 mil habitantes, mas vale a pena  visitar. È uma cidade histórica com atrações interessantes, entre elas o Museu de doces russos. Ele abriu em 2013 graças a Tatiana Feina, que fez a coleção e cuida do museu.

O museu localiza-se no segundo andar da casa 18 na rua Moskovskaya (улица Московская, дом 18).

A entrada é gratis, você paga só se você quer comprar alguma coisa ou tomar chá e ouvir uma história sobre as tradições de chá e doces na Russia.

No museu você vai ver doces russos que ja existem há muitos anos, como petuchok ou prianik. Tatiana também coleciona e guarda as receitas e histórias sobre os doces que foram esquecidos com o tempo. Tem doces que são dificeis de encontrar na Russia moderna, como varenie de dente-de-leão (sim, a flor), farinha de azereiro, belevskaya pastila e muitos outros!


Você pode experimentar esses doces no museu ou comprar e levar para casa. Também la vende-se mel natural das varias regiões da Russia, chás e ervas.


Além de doces ha uma coleção de louça antiga, utensílios e móveis para cozinha. O museu é decorado com quadros relacionados com a comida e as tradições russas.


Se estiver em Moscou, visite o Museu de doces russos! Ele de verdade parece uma maravilha. Zvenigorod não é tão longe de Moscou, da para viajar em 40-60 minutos. Além de museu lá tem um monasterio antigo (Savvino-Storozhevsky), Casa de Tchekhov e uma arvore com placa aonde ele custumava ficar na sombra, Igreja de Nikolai-Tchudotvorets (de madeira), Igreja de Aleksandr Nevsky e outras igrejas antigas.

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